Porque viajar
Viajar, para mim, nunca foi sobre atravessar fronteiras geográficas. Com o tempo, entendi que o verdadeiro deslocamento acontece dentro — nas fronteiras internas que sustentam certezas frágeis, nos pré-conceitos que carregamos sem perceber, no ego que insiste em querer ter razão. Viajar é atravessar tudo isso. É presença aplicada à vida.
Já percorri muitos lugares do mundo, mas aprendi que o destino importa menos do que a forma como chegamos. Quando viajo aqui pelo Brasil e quando estou com meus filhos, vivo experiências tão transformadoras quanto aquelas que tive do outro lado do oceano. É no encontro verdadeiro, e não na distância, que a vida ensina. E, sem precisar fazer discursos, percebo que vou mostrando a eles algo essencial: cada cultura revela um modo próprio de equilíbrio. Cada pessoa que cruzamos questiona certezas antigas. E o mundo — ao contrário do que contam — não precisa ser interpretado com medo, apenas vivido com atenção.
Estereótipos mentem. Quando nos aproximamos de pessoas reais, percebemos que grande parte do que “sabíamos” era construção mental, não experiência. A vida, quando observada sem filtros, sempre surpreende mais do que as versões editadas que circulam por aí. Do mesmo modo, compreendi que o medo nasce da ignorância. Ele cresce de histórias mal contadas, notícias distantes e opiniões herdadas. Mas quando o corpo pisa no lugar, quando meus olhos realmente veem, algo se reorganiza. O medo perde força, a curiosidade assume o comando — aquela curiosidade leve, viva, que só aparece quando estamos presentes.
Também aprendi que o meu jeito não é o certo — é apenas o meu. E isso é libertador. O ego adoece quando acha que ele é a medida universal. Há muitas maneiras de viver bem, comer, pensar, organizar o tempo e permanecer em paz. Viajar me ensinou que essa compreensão não exige discursos elaborados; exige convivência, silêncio, escuta.
E, apesar das narrativas pessimistas, descobri que o mundo é mais gentil do que dizem. Quando caminho com presença, recebo ajudas inesperadas, sorrisos que não precisam de idioma, gestos simples que permanecem em mim mais do que qualquer paisagem. Talvez seja porque gentileza é uma força que só se ativa quando estamos verdadeiramente disponíveis para o encontro.
Em uma viagem, naturalmente, nem tudo flui. Às vezes, não há conforto, não há encaixe — e tudo bem. Aprender a estar confortável no desconforto é entender que a vida não precisa se organizar para atender nossas expectativas. É confiar. É soltar. É deixar que o mundo seja como é.
E talvez uma das maiores lições da estrada seja entender que educação não é universal. Respeito não é um protocolo; é um estado de presença. Cada cultura expressa cuidado de um jeito: no silêncio, na pausa antes da palavra, no olhar que acolhe sem invadir. Viajar me ensinou a parar de julgar o mundo pela régua da minha própria casa e a escutar outras humanidades. Esse aprendizado vale mais do que qualquer sermão, qualquer aula em universidade.