4 fevereiro, 2026

(foto gerada por IA)

Uma pergunta que surge com frequência nas consultas das bebês meninas é “Qual a melhor hora para furar a orelhinha?”

E minha resposta costuma provocar expressões de espanto: A hora que ela quiser.

Logo vejo os olhos arregalados, acompanhados de um “Mas como assim?”, seguidos de dúvidas práticas: “Depois não vai doer mais?”, “Se ela for maior não vai deixar”, “Mas a avó já deu o brinquinho…”.

Respiramos juntas. E eu proponho algo simples, mas revolucionário: pensar antes de protocolar.
A sociedade cria normas silenciosas que vamos repetindo sem questionar.
Menina “tem” que furar a orelha.

Mas… quem disse? De onde vem essa obrigatoriedade? E, principalmente, ela faz sentido para este bebê?

Quando paramos para refletir, alguém sempre pergunta: “Mas qual o problema?”. Não se trata de demonizar o ato de furar a orelha; trata-se de entender quando e por que fazemos isso.

A pressão para furar a orelha das meninas tão cedo não surge do nada; ela faz parte de uma herança cultural em que o corpo feminino sempre foi tratado como algo a ser moldado, adornado e regulado desde muito cedo. Há uma expectativa silenciosa de que meninas precisam “parecer meninas” — como se a identidade delas dependesse de sinais externos que as tornem mais reconhecíveis ou aceitáveis socialmente. Esse impulso coletivo, muitas vezes inconsciente, toca em algo mais profundo: a sensação de que o corpo das meninas pertence ao olhar social antes mesmo de pertencer a elas próprias. São pequenos gestos que, somados, comunicam que o corpo feminino deve se adaptar a normas estéticas, tradições e convenções que antecedem qualquer vontade individual. Não é uma crítica ao ato de furar a orelha, mas uma reflexão sobre como naturalizamos práticas que reforçam, ainda que de forma sutil, a ideia de que as escolhas sobre o corpo das meninas — e futuramente das mulheres — podem ser feitas pelos outros, antes delas mesmas. É justamente por isso que vale a pena parar, pensar e devolver a essa criança, no tempo certo, o direito de escolher. 

Do ponto de vista técnico, um bebê já exige cuidados específicos. Para as meninas com orelhas furadas, soma-se a isso a higiene do brinco: limpar, girar, verificar se não está inflamado. É mais um ponto sensível para um corpo tão pequeno.

E aqui entra a pergunta prática: se nós, adultas — com orelhas já robustas e “treinadas” — muitas vezes tiramos brincos para dormir ou tomar banho por incômodo, por que imaginar que um bebê, com uma micro orelhinha delicada, não vá sentir desconforto? Algo pressionando a orelha enquanto ela mama no colo, enquanto tenta encontrar uma posição confortável para dormir… incomoda sim. Não é difícil imaginar.

Bebês sentem dor, e isso não é opinião, é ciência. Não é porque o bebê não verbaliza que não sofre. Existem protocolos bem estabelecidos em UTIs neonatais para avaliar dor em bebês internados. E basta lembrarmos da nossa própria reação durante o teste do pezinho — um único furo, extremamente necessário — para perceber que furar as orelhas envolve um sofrimento evitável.

E essa é a pergunta que sempre devolvo às famílias: por que submeter um recém-nascido a um procedimento doloroso e sem necessidade médica? Por vaidade dos adultos? Por tradição? Por medo de julgamentos? Por essa sensação de que seguimos uma “regra” invisível, mesmo quando aperta nosso coração?

Eu escolhi não passar por isso. Preferi lidar com a estranheza das pessoas ao invés de lidar com o choro de uma bebê furada sem compreender o porquê. Isso não faz de mim uma ativista contra furar orelhas; faz de mim uma mãe e médica a favor da autonomia, da espera e do respeito — ainda que o bebê não fale. Podemos e devemos perguntar ao nosso íntimo: será que ela quer? Será que agora é o momento?

Os dois pares de brincos que a minha filha ganhou estão guardados até hoje. Primeiro pensei em furar quando ela completasse um ano. Depois imaginei levá-la a um acupunturista para fazer o furo. Mas o tempo passou, e ela cresceu. Hoje tem 15 anos é uma adolescente doce, cheia de cachos. Tem seu próprio jeito de se vestir e ser vaidosa. E os brincos continuam lá, guardados. Quando — e se — ela quiser, quando ela estiver disposta a sentir duas agulhadas compreendendo o que isso significa, quando ela quiser, eu a levarei fazer os furos. E serei seu apoio… mas sem o aperto no coração, porque será uma escolha dela, não uma decisão tomada por hábito, tradição ou pressa.

No fim, não é sobre ser contra ou a favor. É sobre consciência. Sobre lembrar que bebês sentem, que autonomia nasce antes da fala, e que cuidado também é escolher o momento certo. Cada família decide do seu jeito — desde que decidindo pensando.

Dra. Silvia Gioielli 
 RQE nº 145297
 

Porque viajar

4 fevereiro, 2026



Viajar, para mim, nunca foi sobre atravessar fronteiras geográficas. Com o tempo, entendi que o verdadeiro deslocamento acontece dentro — nas fronteiras internas que sustentam certezas frágeis, nos pré-conceitos que carregamos sem perceber, no ego que insiste em querer ter razão. Viajar é atravessar tudo isso. É presença aplicada à vida.

Já percorri muitos lugares do mundo, mas aprendi que o destino importa menos do que a forma como chegamos. Quando viajo aqui pelo Brasil e quando estou com meus filhos, vivo experiências tão transformadoras quanto aquelas que tive do outro lado do oceano. É no encontro verdadeiro, e não na distância, que a vida ensina. E, sem precisar fazer discursos, percebo que vou mostrando a eles algo essencial: cada cultura revela um modo próprio de equilíbrio. Cada pessoa que cruzamos questiona certezas antigas. E o mundo — ao contrário do que contam — não precisa ser interpretado com medo, apenas vivido com atenção.

Estereótipos mentem. Quando nos aproximamos de pessoas reais, percebemos que grande parte do que “sabíamos” era construção mental, não experiência. A vida, quando observada sem filtros, sempre surpreende mais do que as versões editadas que circulam por aí. Do mesmo modo, compreendi que o medo nasce da ignorância. Ele cresce de histórias mal contadas, notícias distantes e opiniões herdadas. Mas quando o corpo pisa no lugar, quando meus olhos realmente veem, algo se reorganiza. O medo perde força, a curiosidade assume o comando — aquela curiosidade leve, viva, que só aparece quando estamos presentes.

Também aprendi que o meu jeito não é o certo — é apenas o meu. E isso é libertador. O ego adoece quando acha que ele é a medida universal. Há muitas maneiras de viver bem, comer, pensar, organizar o tempo e permanecer em paz. Viajar me ensinou que essa compreensão não exige discursos elaborados; exige convivência, silêncio, escuta.

E, apesar das narrativas pessimistas, descobri que o mundo é mais gentil do que dizem. Quando caminho com presença, recebo ajudas inesperadas, sorrisos que não precisam de idioma, gestos simples que permanecem em mim mais do que qualquer paisagem. Talvez seja porque gentileza é uma força que só se ativa quando estamos verdadeiramente disponíveis para o encontro.

Em uma viagem, naturalmente, nem tudo flui. Às vezes, não há conforto, não há encaixe — e tudo bem. Aprender a estar confortável no desconforto é entender que a vida não precisa se organizar para atender nossas expectativas. É confiar. É soltar. É deixar que o mundo seja como é.

E talvez uma das maiores lições da estrada seja entender que educação não é universal. Respeito não é um protocolo; é um estado de presença. Cada cultura expressa cuidado de um jeito: no silêncio, na pausa antes da palavra, no olhar que acolhe sem invadir. Viajar me ensinou a parar de julgar o mundo pela régua da minha própria casa e a escutar outras humanidades. Esse aprendizado vale mais do que qualquer sermão, qualquer aula em universidade.

No fim, percebo que o maior deslocamento não é externo: é sair do centro de mim mesma e, ainda assim, sentir-me em casa. Viajar me devolve ao mundo — e a mim — de um jeito mais leve, mais atento, mais verdadeiro.

E sigo assim: aprendendo, caminhando, educando em silêncio e permanecendo disponível para tudo aquilo que só a experiência direta pode revelar. Porque tudo o que vivo nas viagens — cada encontro, cada desconforto, cada desmonte de certezas e cada expansão de presença — me transforma profundamente como pessoa, como mãe e como médica. A vivência que trago das viagens se infiltra no meu dia a dia sem esforço, orienta minha convivência com quem cruzo pelo caminho e se expressa, de forma silenciosa e concreta, na minha prática clínica.

Viajar me amplia — e é isso que levo comigo para a vida.

Dra. Silvia Gioielli 
 RQE nº 145297
 

Minha História

4 fevereiro, 2026



Sou médica homeopata e minha caminhada na medicina teve início há vinte e cinco anos. Desde então, sigo aprendendo, todos os dias, a promover saúde e bem-estar para além do alívio de sintomas. A prática médica me ensinou muito, mas foi ao longo da vida — especialmente nas experiências fora do consultório — que surgiram os questionamentos mais profundos sobre o que realmente significa cuidar.

Minhas viagens, sempre transformadoras, são uma fonte constante de inspiração. É nelas que encontro tempo, silêncio e distância suficientes para observar, sentir e repensar. Cada deslocamento amplia meu olhar e me impulsiona a buscar respostas mais integrais, humanas e coerentes com os ritmos da vida. Muitas das escolhas que fiz na medicina nasceram desses movimentos.

Foi nesse contexto que o Ayurveda e o Yoga entraram de forma definitiva no meu caminho. Nessas tradições, encontrei não apenas conhecimento, mas instrumentos práticos para colocar em ação uma visão de saúde que respeita a natureza, os ciclos, a individualidade e a inteligência do corpo. Aprofundei esses estudos em formações realizadas no Brasil e na Índia, integrando ciência, tradição e prática clínica.

Ao longo da clínica, fui compreendendo que saúde se constrói quando olhamos o ser humano por inteiro — corpo, mente, emoções, história de vida e contexto. Atendo crianças, adolescentes e adultos, acompanhando processos de cuidado que valorizam o autoconhecimento, a regulação física e emocional e o desenvolvimento de práticas de autocuidado possíveis no cotidiano real de cada pessoa.

Além da clínica, atuo como professora e palestrante, compartilhando uma visão de saúde que integra conhecimento médico e sabedoria ancestral, sempre com escuta, ética e individualização.

Mais recentemente, venho aprofundando meus estudos em Homeopatia contemporânea, especialmente no uso dos lantanídeos, a partir da abordagem desenvolvida por Jan Scholten, em formação e supervisão com o Dr. Fernando Frasolin. Esse aprofundamento tem ampliado meu olhar para o cuidado do neurodesenvolvimento, da neurodivergência e da cognição, áreas que exigem sensibilidade clínica e respeito à singularidade de cada indivíduo.

O gosto pela escrita, que trago comigo desde a infância, tornou-se o meio natural de compartilhar tudo isso. Escrever é, para mim, uma forma de organizar pensamentos, registrar experiências e abrir diálogo. É assim — experimentando, observando e integrando — que construo este blog e sigo meu caminho.

Escolhi a Medicina Integrativa e Complementar porque acredito em uma medicina que não se impõe, mas caminha junto. Uma medicina que escuta, acolhe e acompanha, reconhecendo que cada processo de saúde é único.

Dra. Silvia Gioielli 
 RQE nº 145297
 

Altas Habilidades e Superdotação: compreender para cuidar, acolher e florescer

3 fevereiro, 2026



Na prática clínica, é essencial dizer com todas as letras: Altas Habilidades/Superdotação (AH/SD) não são transtorno nem doença. São uma forma legítima de neurodesenvolvimento — um modo de funcionar em que o pensamento corre mais rápido, as conexões chegam mais cedo, a percepção é mais fina e a emoção, mais intensa. Em crianças, adolescentes ou adultos, esse perfil pode se manifestar com potenciais elevados em áreas intelectuais, acadêmicas, criativas, artísticas, psicomotoras ou de liderança, acompanhados de pensamento abstrato precoce, hiperfoco e uma sensibilidade ampliada ao mundo. Recursos valiosos, sim — mas que podem se converter em fonte de sofrimento quando permanecem invisíveis, mal interpretados ou não recebem o ambiente certo para se desenvolver.

AH/SD não é diagnóstico de patologia; exatamente por isso, muitas pessoas adoecem na invisibilidade. Quando a escola exige uniformidade, o trabalho pede repetição e a família não enxerga o ritmo interno — rápido e profundo por dentro — é comum emergirem sobrecarga mental, fadiga cognitiva, ansiedade, dificuldade de “desligar”, hipersensibilidades que exaurem e um perfeccionismo que paralisa. O resultado, tantas vezes, é a sensação de inadequação e solidão: cabeças cheias, corações cansados, noites mal dormidas, um corpo tentando regular o que o entorno não ajuda a regular.

O ambiente importa — e muito. Importa respeitar o tempo interno, validar a forma singular de sentir e pensar, nutrir a curiosidade e abrir espaço para o aprofundamento sem que a intensidade precise pedir desculpas para existir. Quando isso falta, crianças, adolescentes e adultos com AH/SD tendem a ficar mais ansiosos ou deprimidos, retraindo a própria potência e desconfiando do que, justamente, lhes dá sentido. Porque, no fundo, quando falamos de “potencial”, não falamos de uma corrida por sucesso material; falamos de coerência interna: estar bem consigo, viver de modo satisfatório e contribuir de forma concreta e positiva para o mundo — cada um a seu modo, no seu compasso e com autonomia.

Conhecer a condição transforma o cuidado. Dar nome ao que se vive organiza a experiência, legitima o funcionamento neurológico e reduz sofrimentos evitáveis. A psicoeducação abre caminho para estratégias de autorregulação, melhora vínculos em casa, na escola e no trabalho, e sustenta autoestima e autonomia. Quando a pessoa entende que não é “exagerada” ou “difícil”, mas alguém com uma arquitetura própria de processamento, nasce a chance de florescer.

Onde entram os lantanídeos na Homeopatia?
Na abordagem homeopática contemporânea, a família dos Lantanídeos (segundo a organização clínica do médico sueco Jan Scholten) é associada, por analogia temática, a processos de autonomia, autodireção e regulação de limites. Em perfis com alta intensidade cognitiva e sensorial — como frequentemente ocorre em AH/SD — esses medicamentos podem ser considerados quando observamos uma tensão entre um eu interno muito ativo e as demandas externas: necessidade de controle, hipervigilância, hipersensibilidade a estímulos, cansaço por sobrecarga mental, dificuldade em modular foco e desligamento. No raciocínio homeopático, os lantanídeos são escolhidos não pela “etiqueta” AH/SD, mas pelo conjunto de sinais: como a pessoa sente, pensa, reage, organiza limites, lida com autonomia e com a própria autoridade interna.

O objetivo, aqui, não é “normalizar” o indivíduo, e sim apoiar a regulação do sistema nervoso do ponto de vista funcional, facilitando equilíbrio afetivo, manejo de ansiedade/sobrecarga, qualidade do sono e uma relação mais suave com a sensibilidade — para que ela deixe de ser fonte de sofrimento e volte a ser potência de percepção. A seleção do medicamento é sempre altamente individualizada, levando em conta história de vida, padrão emocional, corpo, contexto e vínculos; e pode se integrar a outras estratégias baseadas em evidências (psicoeducação, psicoterapia, ajustes pedagógicos/ocupacionais, higiene do sono, atividade física, nutrição), compondo um cuidado mais completo. É importante lembrar que a Homeopatia atua junto de um plano terapêutico mais amplo; não substitui intervenções necessárias nem deve adiar avaliações médicas ou psicológicas indicadas.

Vejo AH/SD como expressão da diversidade neurológica humana. A boa medicina começa quando escutamos para além do desempenho e acolhemos a forma única como cada pessoa sente, pensa e existe. Meu compromisso é unir conhecimento técnico e escuta qualificada para construir, junto com o paciente e sua rede, um caminho possível — um caminho em que a intensidade encontre direção, a curiosidade encontre campo fértil e a vida, enfim, encontre sentido.


Cuidar bem é reconhecer quem está à nossa frente e oferecer condições para que essa singularidade viva

com propósito, autonomia e bem‑estar.

Dra. Silvia Gioielli

RQE no. 145297



 

Clínica é ciência. Cura é encontro.

3 fevereiro, 2026
 
(foto gerada por IA)

A pequena Ayla, 9 meses, chegou recentemente da Suécia. Sua mãe, Helena, atravessa um dos capítulos mais difíceis de sua vida: um trauma profundo no quinto mês de gestação, um parto complexo, puerpério marcado pelo luto profundo e abrupto que a deixou sem chão.

Ao retornar ao Brasil, Helena deixou para trás casa, documentos, rotina — tudo — para reencontrar sua rede de apoio e poder seguir.

Quando me procuraram, com 9 meses, Alya recusava completamente qualquer alimento.
Helena, já sem energia, mantinha amamentação exclusiva e carregava, além da exaustão física, o peso emocional do luto e da culpa, sem conseguir se distanciar da filha. 

Iniciamos, então, um processo integrativo — clínico, mas também profundamente humano.

  • Orientei a introdução da alimentação complementar segundo o Ayurveda, respeitando o Agni, a história emocional e a fisiologia do bebê.
  • Suplementação nutricional de acordo com o Ministério da Saúde, garantindo segurança e adequação para a idade.
  • Atualização gradual do calendário vacinal, considerando as diferenças epidemiológicas entre Suécia e Brasil.
  • Atenção integral à mãe: escuta ativa, suporte, solicitação de exames, suplementação nutricional adequada para o quadro de exaustão física e emocional e Homeopatia para o momento do luto e o contexto mental geral.
  • Orientação e informação sobre vínculo seguro, autonomia do bebê e diferenciação saudável — bases da neurobiologia do cuidado.
E, em um mês, o resultado:

Ayla já aceita sólidos em BLW, explorando texturas, mastigação e independência.
Helena passou a respirar melhor e a reconhecer sua dor sem se dissolver nela. Pode compreender que bebês são seres com inteligência própria, e que florescem quando a mãe encontra seu próprio centro.

Com isso, Ayla pôde ir se afastando do peito de forma natural. Há leveza onde antes havia apenas sobrevivência.

A medicina integrativa é isso: unir ciência, tradição, presença e alma.

Sustentar duas histórias entrelaçadas até que ambas possam seguir mais livres.

Esse sorriso é a prova silenciosa do processo. 

Dra. Silvia Gioielli 
 RQE nº 145297